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O problema da motivação

  • Foto do escritor: Artur Rios
    Artur Rios
  • há 1 hora
  • 3 min de leitura
Telas brancas me aguardando.
Telas brancas me aguardando.

O problema do ovo e a galinha também se encontra na motivação. Um dos insights que eu já tomei enquanto artista-profissão foi não depender da garantia do retorno externo para que eu tentasse fazer o meu “melhor” na arte. Por outro lado, reconheço o quanto este retorno do mundo é imprescindível, como uma lenha que alimenta. Saber quem veio primeiro, o ovo ou a galinha, é semelhante a buscar o primeiro emprego que exige que já se tenha experiência. Para ter experiência, o requisito é que já se tenha experiência. A motivação do artista profissional segue um raciocínio parecido: para que eu produza, é preciso que o mundo me queira; mas para que o mundo me queira, é preciso que eu produza.


Fazer arte enquanto “algo que apenas acontece” é possível, como se fosse algo consequente do súbito, mas se torna algo menos casual quando estamos imersos numa condição profissional. Há todo um trabalho que não é apenas corporal, da coordenação motora, mas sim subjetivo de poder manter o combustível da inspiração ativo. O trabalho é dentro e fora. Utilizando-me de péssimas analogias, é como se um músico adorasse tocar seu instrumento, mas para suportar as turnês ele precisasse recorrer a drogas para dormir bem ou se manter com a melhor disposição; ou um ator p04nô que não aguenta o pique produtivo e recorre a medicamento de ereção. Felizmente, eu não uso drogas, mas descubro as minhas próprias estratégias de manter as boas ideias e bons estados de espírito para uma produção mais consistente. Parte dessa motivação para a profissão é também a reciprocidade do mundo e seu cenário artístico para que possamos ter o sentimento de que vale a pena. É muito bom quando sentimos que o que fazemos é compensador, mas é angustiante depender da realidade em que se vive.


Na minha experiência, a motivação sempre precisou nascer de mim para mim, pois onde vivo não existe valorização ou demanda o suficiente para que eu sentisse que valesse a pena investir em minha própria arte. Frequentemente, eu tenho que brigar com o mundo afora por dentro de mim, para que eu possa me motivar comigo mesmo. “Vou fingir que não dependo do mundo, para que eu possa me manter produzindo”. É preciso encontrar uma força cínica e teimosa dentro de si. Eu precisei não esperar nada da realidade do cenário artístico em que vivo para que eu pudesse me ver enquanto artista profissional. Eu decidi partir do seguinte princípio: não esperarei nada do mundo, mas farei valer a pena, quem sabe assim o mundo aconteça para mim como consequência. Preciso romper o ciclo improdutivo de dependência, encontrando-me com minha própria chama para que eu possa me sentir um artista profissional. É como se eu desejasse pássaros, mas me concentrasse em cuidar das árvores. Sendo assim, se estas atraírem os pássaros, então que bom. Não pretendo me “prostituir”, fazendo árvores de plástico apenas para enganar os pássaros.


Encontrar motivação consigo mesmo e sem depender de retorno ou feedback externo é um grande desafio, e vai se tornando impossível para quem é menos privilegiado. Como artista, sou (e acredito que todos somos) inevitavelmente carente de compartilhar o que faço, é como se apenas assim minha arte ganhasse vida. É impossível fugir de nossa sociabilidade e dependência de tornar as coisas mais verdadeiras quando compartilhadas.


Tenho tido retornos positivos com o que produzo, mas sinto que falta alguns nutrientes importantes. Constantemente me questiono se a desmotivação que sinto casualmente é por falta de mais oportunidades para sentir que compartilho e pertenço ao mundo. Também me questiono se não estou sendo influenciado pela comparação e abarrotado pelas redes sociais ao perceber que há um mundo muito maior acontecendo do qual eu não faço parte. Não acho que estamos tão imunes a estes vieses. Frequentemente sinto falta de estar entre as pessoas em carne e osso, interagindo com elas através do meu trabalho. Sou daqueles artistas dentro de seu ateliê-caverna, perdido nos próprios pensamentos e refletindo se não seria melhor virar gente normal. Se não fosse as redes sociais na internet, não sei o que seria de mim sobre me sentir melhor integrado ao mundo enquanto artista, mas tento não me acomodar, pois a tela de um celular não nutre como a vida real, é como se fosse uma pequena mistura de farinha e água para enganar o estômago.


De qualquer forma, eu sei e sinto que sou inevitavelmente artista. Por toda a minha vida, sempre senti aquelas inquietações criativas de quem quer inventar o próprio mundo, brincar com a ficção de tal modo que ela seja realidade, ver aquilo dentro de mim se materializar e interagir com as pessoas através dessa minha subjetividade expelida. Alguma coisa nesse aspecto dentro de mim sempre vai coçar; talvez seja a minha criança se recusando a virar um engravatado maçante.

 
 
 

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