A arte é feita para agradar.
- Artur Rios
- há 1 hora
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Antes que você discorde de mim, precisamos refletir sobre o que significa agradar. Quando dizem que a arte foi feita para provocar, e não para agradar, eu considero este tipo de afirmação incompleta, e precisa de muitas ressalvas. Isto pode nos levar a uma reflexão sobre o belo e a feiúra.
Quando eu olho para uma arte que parece representar o “feio”, mas ainda assim eu a contemplo e sinto nela algum tipo de prazer, alguma satisfação me ocorre, e toda satisfação é, em outras palavras, um agrado. Se olharmos para uma pessoa que grita ao sentir dor, poderíamos dizer que ela está provocando poluição sonora, o volume da sua voz ficou demasiadamente alto, e está perturbando a ordem pública, que coisa feia! Mas nós sabemos que aquilo proveio de uma necessidade circunstancial - o grito dela, de alguma forma, poderia ajudá-la no alívio de tensão. Ocorre também de às vezes sentirmos prazer no grito do outro, pois é como se ele gritasse por nós. Eu gosto da perspectiva psicanalítica de prazer enquanto alívio de tensão, tal como diz Freud no livro Além do Princípio do Prazer:
Na teoria da psicanálise não hesitamos em supor que o curso tomado pelos eventos mentais está automaticamente regulado pelo princípio de prazer, ou seja, acreditamos que o curso desses eventos é invariavelmente colocado em movimento por uma tensão desagradável e que toma uma direção tal, que seu resultado final coincide com uma redução dessa tensão, isto é, com uma evitação de desprazer ou uma produção de prazer.
O que alivia a tensão é um gerador de estado positivo do corpo, aquele mecanismo básico de homeostase da vida. Vemos fãs de Heavy Metal se digladiando com músicas distorcidas que falam de assuntos sombrios, similar aos fãs de filmes de terror, pessoas que entram em parques de diversão para buscar uma sensação de quase-morte, pinturas famosas na história da arte que falam das dores da humanidade, e, pasmem, pessoas orando para um homem crucificado enquanto sangra:
Para um ocidental, uma máscara ritual africana poderia parecer horripilante - enquanto para o nativo poderia representar uma divindade benévola. Em compensação, para alguém pertencente a alguma religião não-européia, poderia parecer desagradável a imagem de um Cristo flagelado, ensangüentado e humilhado, cuja aparente feiúra corpórea inspira simpatia e comoção a um cristão. (ECO, Umberto. 2007, pág. 10)
Estes exemplos de Umberto Eco falam das relatividades culturais, ainda que atravessadas por traços universais. A percepção do belo e do feio, ou se aquilo causa algum agrado, precisa também ser percebida em seu contexto. É diferente a observação de uma imagem entre o contexto de pintura ou filme, e uma situação real logo à nossa frente. Uma mulher pode ser considerada feia numa situação sexual por alguém, mas encantadora enquanto modelo de uma pintura ou atriz de um filme. Um animal morto com as tripas para fora costuma nos causar alguma repulsa, mas suponho ser a maior das belezas para o leão que o devora. Os contextos induzem o observador a introjetar diferentes valores, assim como o faz a cultura.
Ninguém se dirige a uma exposição de arte para sair de lá com um estado de saúde negativo. Ninguém investe seu tempo e dinheiro para ir num evento artístico onde seu estado de valência final vai ser negativo - isto seria irracional e estúpido demais para um sujeito. É importante que entendamos que algo ser triste, desconcertante ou agressivo não responde sobre ser agradável ou não, pois, como eu disse, o mais importante é se aquilo leva a um resultado posterior de diminuição de tensão, tal como faz o choro. Em outras palavras, o que denominamos como feio pode levar o sujeito a estados positivos, e, sendo assim, a convenção de qualidade estética parece diferente de seu efeito sentimental. É um pouco semelhante a processos terapêuticos também: podemos sair inquietos de uma sessão, mas sabemos que ali começa um desembaraço de nossos pensamentos para uma disposição positiva, e que, portanto, é bela, é boa e de nosso agrado.
Quando se diz que arte não foi feita para agradar, talvez a intenção dessa frase seja em relação ao agrado publicitário, da propaganda de estética padrão e do que se entende por belo genérico. Em outras palavras, agradar enquanto busca de um tipo de beleza sem riscos. Mas o problema desse tipo de colocação é que existe uma percepção limitada do que significa agrado ou beleza, e acredito que se tudo vem de uma vontade, da necessidade de expressar, de aliviar inquietações de nossa alma, então é uma busca do agrado, por consequência do seu sinônimo, o belo, ainda que por vias estéticas do que categorizamos como “feio”.



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